Il n'y a point de chemin vers le bonheur : le bonheur c'est le chemin.

Il n'y a point de chemin vers le bonheur : le bonheur c'est le chemin.
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Lisboa - Août 2009
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# Posté le lundi 09 novembre 2009 16:08

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Goza a vida!

# Posté le dimanche 01 novembre 2009 07:21

A al-Quaeda que não se meta connosco

Esta semana, o nosso país foi ameaçado por grupos terroristas. Ou seja, depois do Euro 2004 e dos MTV Europe Music Awards, Portugal continua na rota dos grandes acontecimentos internacinais. Quando se tem prestígio, nunca se sai da ribalta.
Pela minha parte, confesso que jà estava a ficar magoada com a al-Quaeda, pela indiferença com que nos tratava. Nós não somos menos que os espanhóis, os americanos e os ingleses. Por outro lado, ameaçar Portugal com atentados é muito estúpido. Bin Laden, se me estás a ler, pensa bem: vir provocar catástrofes em Portugal é chover no molhado. Todo o paí é uma espécie de catástrofe. Os miúdos estrangeiros, quando estão a aprender Geografia, jà enumeram os países da Europa dizendo: Alemanha, Itália, França, Espanha e Catástrofe. Basta-nos uma chuva mais intensa ou um calor mais forte para termos cheias, pontes a cair e incêndios de três em pipa. (Sim, eu uso a expressão "de três em pipa".) Não precisamos cá de terroristas. Nós somos os próprios terroristas. Se eu vir um árabe de túnica e turbante no meio da rua, não faço nada. Mas, sempre que vejo um português, sinto-me muito tentado a alertar as autoridades. Esta gente náo é de confiança.
É por isso que, na minha opinião, a al-Quaeda não está a ver bem as coisas. Primeiro, porque as explosões jà estão muito vistas. Sim senhor, ao princípio aquilo impressiona e faz um efeito espampanante. Mas agora jà cansa. Que é feito do vosso brio profissional de terroristas? Vá, toca a inovar. Segundo, porque se o objectivo é aborrecer-nos, não é com bombas que vão consegui-lo. De bombas estamos nós cheios. Todos os meses rebenta uma fábrica de pirotecnia no norte do país e ninguém se rala. Não, as vossas bombas não nos impressionam. Se querem irritar-nos a sério, venham melhorar os nossos níveis de produtividade. Em vez de terroristas, mandem para cá gestores árabes que nos obriguem a trabalhar. Isso é que era desagradável.
Se persistirem em vir para cá organizar atentados, venham por vossa conta e risco. O meu conselho, no entanto, é: não se metam connosco. Vocês estão habituados a levar a cabo actos terroristas em grandes potências. Em Portugal é mais difícil trabalhar. Por exemplo, imaginem que querem fazer como na Inglaterra e planeiam rebentar um autocarro. Antes de mais nada, há uma forte hipótese de os motoristas estarem em greve. Depois, há uma hipótese mais forte ainda de o autocarro estar uma boa meia hora atrasado. Portanto, o mais provável é que a vossa bomba relógio rebente quando o autocarro ainda está sossegadinho no terminal, sem ninguém lá dentro. Tirem daí o sentido. É dinheiro deitado a rua e os explosivos estão caros.


"Boca do inferno", Ricardo Araújo Pereira
A al-Quaeda que não se meta connosco
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# Posté le lundi 17 août 2009 18:55

Modifié le dimanche 11 octobre 2009 16:24

Les fenêtres closes plongeaient dans la pénombre la petite pièce qui servait de salon, mais la lumière matinale du patio éclairait la chambre où le maire et deux agents municipaux attendaient mon grand-père. Le cadavre était sur le lit de camp, recouvert d'un drap, les béquilles à la portée de main, là où leur propriétaire les avait laissées avant de se coucher et de mourir. A côté, sur un petit banc de bois, se trouvait la cuvette qui avait servi à l'évaporation du cyanure et un papier où était
écrit en lettres très grandes, comme dessinées au pinceau : "N'accusez personne, je me tue parce que je suis un vieux con." Les démarches officielles et les détails de l'enterrement, réglés à la hâte par mon grand-père, ne prirent pas plus de dix minutes. Mais elles furent pour moi les plus impressionantes que j'aie jamais
gardées dans ma mémoire.
En entrant, j'avais été frappé par l'odeur de la chambre. Beaucoup plus tard, je sus que c'était l'odeur d'amande amère du cyanure que le Belge avait inhalé pour mourir. Mais aucune impression ne dépassa en force et en durée celle que je ressentis à la vue du cadavre, lorsque le maire souleva le drap pour le montrer à mon grand-père. Il était nu, raide et tordu, ses cheveux jaunes masquaient la peau rêche de son visage, et ses yeux d'eau dormante nous regardaient comme s'il était vivant. Cette terreur d'être vu par au-delà la mort m'a hanté pendant des années chaque fois que je passais entre les tombes sans croixdes suicidés, enterrés en dehors du cimetière, ainsi que l'exigeait l'Eglise. Pourtant, ce qui revenait sans cesse à l'esprit, en même temps que l'horreur à la vue du cadavre, c'était l'ennui des soirées chez le Belge. Sans doute est-ce la raison pour laquelle, en sortant de chez lui, je déclarai à mon grand-père :
"Le Belge ne jouera plus jamais aux échecs."
C'était une banalité, mais à la maison mon grand-père la commenta comme une trouvaille géniale. Les femmes la citèrent avec tant d'enthousiasme que, pendant un certain temps, je refusai de voir nos invités par crainte qu'on ne la répète devant moi ou qu'on ne m'oblige à la répéter. Cela me fit découvrir une particularité des adultes qui m'a été très utile quand je suis devenu écrivain : chacun enjolivait son histoire de détails nouveaux de son propre cru, au point que les versions n'avaient plus rien à voir avec l'original. Personne n'imagine quelle compassion j'éprouve depuis pour ces malheureux enfants que leurs parents considèrent comme des génies et qu'ils obligent à chanter, à imiter les chants des oiseaux et même à mentir devant les invités parce que c'est drôle. Aujourd'hui, je me rends compte que cette phrase toute simple a été mon premier succès littéraire.
"Vivre pour la raconter." Gabriel García Márquez
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# Posté le lundi 13 juillet 2009 09:00

E PRONTO

Agora não. Talvez daqui a uma hora, amanhã, depois de amanhã,
mais tarde, mas agora não. Agora aguenta-te, finge que és forte, sorri
ou, pelo menos, puxa os cantos da boca para cima: se mantiveres os
olhos secos vão pensar que é um sorriso. Então basta pedir
.....- Com licença
.....e saíres. Quantos metros até à porta? Seis? Sete? Continua com os
cantos da boca puxados para cima, caminha de lado se não tens espa-
ço, vai pedindo
.....- Com licença
.....toca ao de leve costas, ombros
.....- Com licença
.....contorna esse homem gordo que te não ouviu
.....(os homens gordos nunca ouvem)
.....quatro metros, três metros, mais costas, mais ombros, a música
mais intensa porque o amplificador mesmo em cima de ti, já nem
vês o bar, já nem vês a pista, vês cabeças, caras, nenhum braço que te
acene, te chame, cabeças que não tornarás a ver, caras que nunca viste,
o homen gordo ainda, a ficar là para trás, distante, duas costas, dois
ombros e a porta, umas costas, uns ombros e a porta, nenhumas cos-
tas, nenhums ombros, a porta, ou seja a primeira porta, o bengaleiro a
seguir, entrega a senha à empregada, recebe o casaco, agradece o casaco
aumentando o sorriso
.....(não soltes os cantos da boca)
.....devias ter entregue uma moeda com a senha
.....(entregaste?)
.....a segunda porta, a rua, as pessoas que esperam para entrar e te
olham com inveja, o segurança de braços afastados a impredir uma
rapariga
.....- Um momento
.....pisca um olho ao segunrança
.....(pisca-me sempre um olho amigo ao segurança)
.....cumprimenta-o
.....- Até amanhã
.....ou assim, tanto faz, não se entende com a música, aceita a palma-
dinha do segurança que afinal te conhece
.....- Tão cedo?
.....e as pessoas que esperam para entrar não somente com inveja,
com respeito, hesitando quem serás, quem não serás, uma delas
.....(a esperta)
.....para o segurança, a apontar-te
.....- Sou prima desta tipa
.....o segurança a aumentar no interior da camisa
.....- Disse um momento não disse?
.....já quase ninguém, já ninguém, tu sozinha na esquina, procura as
chaves do carro na mala entre os lenços de papel e os óculos escuros,
deixaste o automóvel ali em baixo, na praceta, não esta travessa, a
seguinte, a seguinte também não, havia um chafariz por aqui, depois
da padaria fechada talvez
.....(é uma padaria)
.....que estes bairros antigos parecem-se todos, acanhados, estreitos, os
caixotes do lixo a atravancarem o passeio para além do que os morado-
res deitam fora, uma cadeira, um fogão, um armário amolgado, aí está
o chafariz no fim de contas não à esquerda, à direita, com uma luz
municipal em cima, a coroa da monarquia, uma data na pedra
.....1845
.....nenhuma bica a deitar água, a praceta e o seu quadrado de relva, o
banco de madeira a que faltam duas ripas, um jipe e passando o jipe
o teu carro, quando chegaste entre um jipe e uma furgoneta e agora
entre um jipe e outro jipe, os dois tão unidos ao automóvel que vais
gastar um século a torcer o volante, a avanaçar, a recuar, a tirá-lo de
modo que bates devagarinho neste, bates devagarinho naquele, talvez
desta vez
.....(não, um avanço e um recuo ainda)
.....um drogado fraternal a auxiliar a manobra, vasculhar na carteira
(lenços de papel, óculos escuros, a agenda com páginas do telefone do
dentista solta)
.....em busca de uma moeda para o drogado
.....(a moeda que devias ter dado no bengaleiro)
.....e o drogado a olhar-te sem olhar a moeda de forma que tranca o
carro depressa, o estalido das portas e o drogado a troçar-te mas com
os olhos sérios, a espalmar o nariz no vidro, a diminuir, inofensivo, à
medida que avanças, becos, travessas, sentidos proibidos, onde se apa-
nha a avenida, onde raio se apanhará a avenida, novos sentidos proibi-
dos, uma comioneta de lavar a rua a impedir-te um caminho que pen-
sas conhecer, uma seta a obrigar-te a contornar uma estátua que não é
bem uma estátua, é metade de um homen a emergir de um calhau e
nisto, sem que dês conta, o rio, armanazéns, contentores, uma espécie de
guarita e perto da guarita os pescadores da noite jogando linhas ao
Tejo, o cheiro do gasóleo, o cheiro da vazante, percebes a água por refle-
xos, escamas, não necessitas de sorrir nem de puxar os cantos da boca,
inclina um bocadinho o banco, acomoda-te melhor, liga o rádio, expe-
rimenta um cigarro e a página do telefone do dentista a surgir da car-
teira juntamente com o maço
.....(não apenas o dentista, Dina, David, Duarte)
.....um papelinho amarelo colado por baixo do telefone a lembrar-te
.....(quarta-feira onze)
.....a consulta, guarda a página, se não achas o isqueiro tens o isqueiro
do carro, empurra-se e daqui a nada salta com a ponta vermelha, não
gostas do isqueiro do carro porque o tabaco queimado fica preso aos
aneizinhos em brasa, um dos pescadores procura isco na alcofa, os
morros de Almada, uma paz tão grande não é, sussego lento não é,
uma calma não é, a tristeza a dissolver-se, fecha os olhos, descansa, e
vais ver que daqui a nada já não te lembras que acabámos, daqui a
nada já não te lembras de mim.

Terceiro livro de crónicas, António Lobo Antunes

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# Posté le vendredi 14 novembre 2008 16:43

Modifié le dimanche 16 août 2009 18:39

Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens. [José Saramago]

J'ai toujours évité, avec horreur, d'être compris. Être compris c'est se prostituer. J'aime mieux être pris sérieusement pour ce que je ne suis pas, et être ignoré humainement, avec décence, avec naturel.
Rien ne provoquerait autant mon indignation que de voir mes collègues de bureau me trouver "différent". Je veux savourer à part moi cette ironie de ne pas être, pour eux, différent. Je veux endurer ce cilice de les voir me juger semblable à eux, et subir cette crucifixion de ne pas être distingué. Il est de ces martyres plus subtils que ceux des saints et des ermites. Il y a de ces supplices de l'intelligence, comme il y a ceux du corps et du désir. Et l'on connaît dans ces supplices, comme dans les autres, une certaine volupté [...].



Le Livre de l'Intranquilité, Fernando Pessoa



Conheces o nome que te deram, não conheces o nome que tens. [José Saramago]

# Posté le jeudi 04 septembre 2008 05:36

Modifié le lundi 25 mai 2009 16:21